Armadilha do Diabo (1962)

Considerado um dos pais do movimento Nová Vlna, a nouvelle vague tchecoslovaca, Frantisék Vlácil possuía uma visão muito única de cinema e demonstrava isso logo em seus trabalhos iniciais. Após uma série de curtas e um longa metragem de estreia, Holubice (Pomba Branca), envolvendo a inocência e a beleza da infância, Vlácil explorou temáticas distintas, mais realistas e críticas, como um prelúdio para o movimento que ainda estava por vir. Armadilha do Diabo (Armadilha do Diabo), segundo longa de Vlácil, que posteriormente fora incluído numa trilogia também composta por Marketá Lazarová e Udoli vcel (O Vale das Abelhas), baseado na obra literária homônima de Jirí Šolc, apresentou diversos elementos que tornariam-se recorrentes não só nos filmes de Vlácil, mas em todo o movimento: crítica religiosa, ambientação medieval / ruralista e personagens cruéis e injustos que servem como metáfora para o governo opressor de seu país.

Século XVII. A inquisição está em seu apogeu, em que famílias inteiras são perseguidas e queimadas sob acusações de bruxaria e pactos demoníacos. Esta é a ambientação de Armadilha do Diabo, que nos apresenta uma família humilde, cujo pai é um moleiro muito sábio e de conhecimentos a frente de seu tempo. Por ter sobrevivido a um incêndio, o moleiro é acusado de ter feito um pacto com o diabo para ganhar vida eterna. Seu filho, Jan (Vít Olmer), é apaixonado por Martina (Karla Chadimová), mas graças aos boatos espalhados no vilarejo onde moram, o relacionamento de ambos acaba entrando num estado turbulento. Graças a seus conhecimentos técnicos, como localizar terrenos com água e saber que tipo de construção está prestes a desmoronar, o moleiro garante sua própria sobrevivência e a de sua família. O governador do vilarejo e o bispo local, no entanto, consideram-no uma ameaça à sociedade, um ser demoníaco que deve ser destruído – mesmo que o moleiro jamais tenha cometido nenhum crime, a não ser conseguir sucesso com a água em tempos de seca por ter noções rudimentares sobre a terra.

Logo no início do filme, antes mesmo dos créditos iniciais, há uma visão que resume ao espectador o que está por vir: um take panorâmico de uma gigantesca estátua de Jesus, e um homem, quase imperceptível, a uma longa distância, caminhando em direção à estátua. A religião acima do homem, a divindade estando sempre numa posição superior; especialmente no caso deste homem em questão, o moleiro, oprimido pelo poder da religião e aqueles que a praticam. Julgado e pressionado erroneamente, o moleiro não possui nenhuma chance contra o poder da igreja, o poder daqueles que escolheram Jesus como o símbolo da paz e da verdade – os mesmos que, ironicamente, o acusam de coisas que não ocorreram e organizam uma guerra santa contra ele e sua família.

Nesta época, a Tchecoslováquia ainda era o território de Boêmia, parte do Sacro Império Romano. Durante a intervenção sueca na guerra dos trinta anos, os exércitos tentavam sobreviver através de colheita e plantio. O contexto histórico do filme mostra-se preciso ao demonstrar o que realmente aconteceu neste período negro da história, onde a população em geral passava fome e sede. O dinheiro gasto nas guerras pelos governos ajudava a esvaziar os cofres públicos, deixando os territórios ainda mais pobres. O castelo degradado do governador demonstra sutilmente o estado deplorável da economia local. Já o governador em si, mesquinho, avarento e incômodo com a liberdade do povo, é a personificação de todo líder ditatorial e supremacista. A corrupção do poder, a causa da maioria dos problemas do mesmo povo que supostamente deveria proteger.

Nesta caça às bruxas, há a representação da inocência e da esperança em Martina. Embora levemente influenciada pelos boatos de que o moleiro e sua família estejam envolvidos em algo satânico, ela dá o benefício da dúvida e prefere acreditar naquele que a ama, Jan. O casal é a esperança de que algum dia a opressão religiosa se extinguirá por completo e não fará com que inocentes tornem-se vítimas deste sistema cruel e desumano. Sistema este que possui fortes representantes, como o padre inquisidor. Suas atitudes, tomadas por fé cega e superstição, acabam por prejudicar inocentes e, por fim, a si mesmo. Influenciado pelo poder corrupto do governador e o oportunismo do bispo, que deseja tomar as terras do moleiro após sentenciá-lo à fogueira, o padre utiliza sua maior arma – a fé – para convencer os moradores do vilarejo de que há um agente do diabo entre eles.

Vlácil externaliza, através do experimentalismo de uma câmera que foca-se em takes longos e belos, momentos de suspense, mistério, romance e drama. Sua atmosfera única retrata com maestria a desgraça de uma era que o mundo preferiu esquecer. O que provou-se errôneo, pois com o esquecimento desta era, também foram esquecidas todas as lições que a humanidade deveria ter aprendido. O poder é o principal aliado da religião, mas ambos também corrompem-se mutuamente. Neste conflito recorrente entre ciência (representada pelo moleiro), religião (bispo) e poder secular (governador), não há um vencedor, e sim uma explosão, cujos efeitos colaterais espalham-se por todos os lados. Esse embate perdura até os dias atuais, novas explosões ocorrem, mas nada mudou. Seria o fanatismo religioso a antítese da fé ou sua apropriação extrema?

Armadilha do Diabo inicia uma das trilogias mais importantes do cinema tchecoslovaco. Seu intuito, embora não distinto da crítica que caracterizou a Nová Vlna, segue uma linhagem mais realista e direta. Enquanto Marketá Lazarová nos apresenta um universo fantástico que Udoli vcel desconstrói tragicamente, Armadilha do Diabo é a visão embelezada e romântica do racionalismo, do pensamento livre, da igualdade. Nenhum homem deve sentir-se atado por forças superiores, independente de quais sejam, e sim estabelecer seu próprio padrão de conduta através da ética e buscar conhecimento em fontes terrenas e/ou espirituais, sempre lembrando de que nossos guias devem servir como um apoio, nunca como uma prisão. Talvez assim, mesmo que aos poucos, a estátua gigantesca que nos encara e oprime possa ser derrubada, e por fim, extinta.



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