Coração de Cristal (1976)

Coração de Cristal (Herz aus Glas), de 1976, talvez seja o filme mais estilizado, enigmático e lisérgico de Werner Herzog, um dos principais expoentes do Novo Cinema Alemão (Neuer Deutscher Film) que acredita que o cinema se alimenta de sonhos, nostalgia e desejos coletivos muito mais do que de realidade. Partindo de um conto do amigo poeta e também cineasta Herbert Achternbusch, baseado em uma lenda bávara sobre um profeta chamado Muhlhiasl, Herzog dá vida ao seu cinema visionário e anti-narrativo, seguindo os passos bem-sucedidos de Fata Morgana – cujo estilo, e intensos códigos visuais sofisticados já provocavam delírios imagéticos dez anos antes. Tudo é uma questão de visão no cinema de Herzog. Até mesmo quando a realidade aprisiona os seres humanos dentro de sua natureza hostil, mas tão desejada, o homem parece conservar sua predisposição à visão, ao sonho e ao desejo de um infinito que nunca poderá alcançar. Visões que influenciam indelevelmente a vida, que a condicionam, que excluem o profeta do mundo normal, que o tornam respeitado e ao mesmo tempo temido pelo povo.

Esta é a história de Hias (Josef Bierbichler), jovem vidente da verde Baviera do século XVIII, profeta visionário e onírico que através do sonho enxerga a deriva de sua aldeia (ou do mundo?). Tudo que Hias prevê concretiza-se, e em uma de suas visões mais aterradoras, lhe é revelado que o fim dos tempos se aproxima. Visões que muito se assemelham, a nível visual, ao Dilúvio Universal. De um modo iconoclástico, tais previsões provocam um impacto visual e pictórico de rara intensidade. Com a morte do mestre vidraceiro da aldeia, morre também o segredo para a construção do vidro-rubi – uma espécie de vidro vermelho que sustentava toda a economia da região. Os habitantes tentam refazer o cristal, mas os esforços são em vão: os segredos permanecerão ocultos para sempre. Não há outra alternativa senão aceitar a deriva, a morte do segredo, o desmoronamento de qualquer tipo de lógica, o deixar-se abandonar e entregar-se ao tempo.

A loucura que circunda a aldeia é inata, o fim, inevitável, e o vidro vermelho-rubi redentor, uma fantasia de nobres – aqui, o cineasta alemão não deixa de inserir também a luta de classes em sua história: o jovem patrão Huttenbsitzer (Stefan Guttler), único a se dar conta da situação, pensa somente em seus interesses e de sua fábrica, enquanto o profeta anuncia a revolta dos pobres contra os ricos. Para colocar em cena tal loucura, Herzog, através de silêncios extenuantes e paisagens estáticas, inventa uma encenação “entorpecida” para seu elenco. Uma espécie de declinação peculiar do distanciamento brechtiano, ao optar por uma dramaturgia anárquica, fragmentada, anti-espetacular e não linear, tornando o todo hermeticamente enigmático e transportando o espectador para um plano abstrato, quase espiritual.

Assim, até mesmo a estrutura narrativa de Coração de Cristal despedaça-se como vidro e deixa-se levar pelo tempo, construindo uma dimensão onírica, visionária e psicodélica que, acompanhada pelas notas medievais do grupo Popol Vuh. Banda que possui uma forte ligação com o diretor, tendo composto a trilha de alguns de seus filmes mais conhecidos, como Nosferatu, Aguirre e Fitzcarraldo. As notas da trilha sonora baseiam-se mais na sugestão que na narrativa lógica, ao passo que na trama, o único que mantém uma linearidade de pensamento é Hias, em contraponto com a população mergulhada numa espécie de transe intelectual, em que qualquer tipo de lógica (nos diálogos, nas ações) é anulada em prol de uma existência apática e indiferente, caracterizada por uma vigília catatônica que faz daqueles corpos algo semelhante aos zumbis de George A. Romero (evidentemente com as devidas diferenças, especialmente as ideológicas).

O filme, em teoria, deveria iniciar-se com Herzog que, surgindo na tela em uma espécie de prólogo xamânico, hipnotizaria o público através da mesma operação utilizada com os atores do filme (todos não profissionais) submetidos a maciças sessões de hipnose antes das gravações, com as exceções de Josef Bierbichler, único ator profissional e não submetido às sessões de hipnose que, não por acaso, interpreta Hias, além dos artesãos, por motivos de segurança. Neste afresco apocalíptico, Herzog sugere o nosso estado de hipnose coletiva e de loucura única e unificadora, enquanto somente o profeta comporta-se verdadeiramente como um ser humano. Mas não é uma questão de magia ou diversidade divina; Hias está ligado diretamente à natureza através de um contato tão próximo que se torna quase uma simbiose. Não à toa, as visões ocorrem sempre em lugares cuja beleza é esplendorosa e estonteante, onde a natureza domina o homem e somente aqueles que respeitam seus ditames podem ser definidos como seres humanos, tornando-se, desta forma, capazes de enxergar além dos demais.

Contudo, mais que um filme complexo, que concentra as múltiplas metáforas que sintetizam a filosofia do cinema de Herzog sobre a condição humana, Coração de Cristal é dotado de uma beleza reconfortante, além da natureza e dos fatos representados, como habitualmente ocorre com as obras de arte. As cores quentes dos interiores, as cores do fogo que forjam os corações de cristais, são fotografadas pictoricamente e, juntamente com as imponentes imagens naturais, parecem compostas como em um quadro flamengo. E da mesma forma que na pintura dos artistas de Flandres, na qual o espectador está incluído ilusoriamente no espaço da representação (através de algumas técnicas como a utilização de múltiplos pontos de fuga), a esperança com a qual Herzog conclui seu filme (o início de um novo mundo) é, por via obliqua, também ilusória. O pessimismo nasce da circularidade: nascemos para morrer, como tudo nasce e morre na ordem superior da natureza. Em um leitura nietzscheana, nos iludimos com uma falsa sensação de liberdade em face de um mundo totalmente limitado pelas forças da natureza.

Influenciado pelas sugestões e pelas visões da viagem que fez caminhando de Munique a Paris, na tentativa de salvar a vida da amiga Lotte Eisner (escritora, poeta e figura proeminente da crítica cinematográfica alemã e francesa), que o próprio diretor narrou em seu livro/diário Caminhando no Gelo (Vom Gehen im Eis), Coração de Cristal é um retrato de uma humanidade autodestrutiva, que caminha às cegas em direção a um futuro que se distancia cada vez mais da natureza e seus mandamentos, uma natureza que talvez seja a única divindade sobre a Terra. Uma divindade frágil, mas corajosa e resistente, ainda capaz de estimular nossas visões em um mundo que se aproxima a cada instante da cegueira total. Cinema sob o efeito de ácido lisérgico, psicodélico em sua forma mais sofisticada. Cinema desconcertante por ser ambíguo, desagradável por ser difícil, árduo por ser deliberadamente obscuro. Cinema de imagens e sensações: cinema de Werner Herzog.

“A natureza não faz milagres; faz revelações.”

– Carlos Drummond de Andrade



Uma resposta para “Coração de Cristal (1976)”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *