Hienas (1992)

A ideia de que o capitalismo pode não ser o sistema perfeito para toda (e qualquer) parte da humanidade, além das indicações de suas faces mais apodrecidas, não é um fenômeno recente. Por muitas décadas, as promessas de meritocracia e da riqueza conquistada através de grandes esforços só conseguem se manter justamente graças ao fato de serem promessas, mesmo que somente a elite privilegiada seja capaz de adquirir tal luxo. O Cinema provou que é possível confrontar, face a face, o que há por trás da máscara capitalista, revelando-se, assim, um método eficaz de questionar as circunstâncias desta armadilha na qual uma parcela gigantesca da população mundial se encontra. Esta complexa questão é o cerne da comédia de humor negro Hienas (Hyènes), de Djibril Diop Mambety, adaptação livre da peça A Visita, de Friedrich Dürrenmatt.

Indicado a Palma de Ouro em 1992, Hienas explora como sua principal temática a intrusão de princípios capitalistas numa sociedade (aparentemente) inocente. Praticamente todos os aspectos importantes da narrativa – com a relação de amor e contexto social em destaque – são impulsionados pelas leis do dinheiro.  Em sua base, este filme assemelha-se ao Terceiro Cinema, popular nos anos 1960 e 1970, principalmente em países latino-americanos. Embora Hienas não corresponda a esses quadros historicamente, o que Hienas compartilha com o movimento mencionado são suas visões de mundo e a vontade de questionar a introdução dos valores capitalistas em toponímicos não-capitalistas, especificamente no vilarejo Colobane, localizado no Senegal.

Djibril Diop Mambéty trata esta séria questão social com leveza e uma boa dose de humor. Ele escolhe incorporar o capitalismo numa personagem chamada Linguere Ramatou, uma senhora rica que retorna a Colobane após muitos anos vivendo no exterior. Enquanto os moradores vêem-na como um raio de esperança e uma figura que pode fornecê-los com ajuda financeira, ela está lá para a vingança como epílogo de sua velha história de amor com Dramaan Drameh, um lojista local que a abandonou em sua juventude. Linguere é afiada, extremamente autoconfiante e, em determinados momentos, até pretensiosa. É descrita como nem mesmo “totalmente humana” – alguns dos seus membros são artificiais, feitos de metal. Além disso, é uma pessoa amarga e, segundo a própria população de Colobane, “tão rica quanto o Banco Mundial”. Por suas próprias palavras, também é impossível matá-la. Seu lado humano não é tão levado em consideração quanto seu lado desumanizado. As pessoas percebem seus caros membros de metal e sua riqueza, embora mal se lembrem de como ela era na escola ou qual era sua triste história de amor. Durante o discurso de recepção, eles nem sequer tentam esconder o fato de que suas esperanças materiais agora estão com ela.

Além de priorizar a riqueza ao invés dos valores humanos, emoções e histórias, o capitalismo também é distintivo com sua ideia de que tudo está à venda – até mesmo vidas humanas. Isso inevitavelmente cria uma semelhança entre o capitalismo e a escravidão, razão pela qual o capitalismo é frequentemente referido como “escravidão moderna”.  Pode-se não comprar a vida de alguém diretamente, mas pode-se subornar pessoas que podem influenciar a vida de outras. Linguere oferece abertamente uma enorme quantia de dinheiro à população, incluindo para um homem de grande poder judiciário (interpretado pelo próprio Mambéty), tentando provar como Dramaan havia cometido um crime por não admitir a paternidade de seu filho quando ela tinha 17 anos, tornando-a pária local e obrigando-a a fugir para o exterior.

Como sugerido por Mambéty, o dinheiro não é somente a linguagem universal; o dinheiro também determina a justiça. Enquanto Linguere realmente sofreu pelos erros cometidos por Dramaan, é altamente questionável se a justiça deve ser obtida por valores éticos ou dinheiro. E é assim que voltamos ao fato de que tudo está à venda. O capitalismo, de certa forma, também pode ser visto como uma espécie de ditadura, na qual o ditador é dinheiro ou seu detentor. Dentro dos quadros da ditadura, os indivíduos são impotentes contra o sistema governamental que supostamente deveria protegê-los, o que muitas vezes acontece através do dinheiro. Dramaan testemunha como o dinheiro corrompe a justiça e depois vê como os policiais são cegos para suas necessidades também, pelas mesmas razões financeiras. O prefeito, corrompido por seus charutos importados, novos e elegantes, também não o ajuda.

O que torna o capitalismo tão atraente para as pessoas? Como visto em Hienas, é o consumismo, a ilusão de viver uma vida de alta qualidade. No início do filme, observamos um logo da Coca-Cola, praticamente um dos mais famosos símbolos universais da globalização e do consumismo ianque, ao lado do McDonalds. Mais tarde, os habitantes parecem muito inspirados pelo estilo de vida de classe alta de Linguere. De repente, todos eles desejam adquirir eletrônicos caros, cigarros melhores, dentes de ouro e outros luxos. Sua ilusão de conforto proporcionada pelos bens materiais os impede de valorizar as coisas essenciais, como a vida humana. Em um momento de desespero, Dramaan tenta se voltar para a fé, apenas para ver que a fé se tornou mais extravagante, também, com um candelabro glamouroso exibido na igreja local, como um sinal de que a religião e o capitalismo se influenciam mutuamente. Enquanto em Hienas tudo é ilustrado com leveza através de personagens interessantes que se endividam por cigarros, certamente há um paralelo com as dívidas da vida real que todas as pessoas presas no capitalismo fazem.

O consumismo atinge brutalmente Colobane. Um parque de diversões, ar condicionado, fogos de artifício, saxofones, tudo, de repente, é importado ao pequeno vilarejo. Enquanto algumas dessas coisas realmente parecem atraentes, úteis e divertidas, surge uma questão – o que acontece com a identidade e a autenticidade de uma cultura quando recebe tal avalanche de influências? Um aldeão quer transformá-lo em um local  de exploração, então oferece a Linguere um acordo para explorar os recursos naturais, perguntando se ela poderia lhe fornecer ajuda financeira. Ela, por outro lado, já se considera dona do mundo e quer fazer dele um “bordel” após a vida tê-la “transformado numa prostituta”. Como o filme revela, não é apenas vingança contra Dramaan, mas contra o mundo. Isso pode nos levar à conclusão de que não há muitos princípios nobres no capitalismo. Trata-se de conquistar dinheiro e poder; uma vez que isso é obtido, o indivíduo está tão vazio e cansado da luta que não resta nenhuma energia para atitudes nobres. A autenticidade de uma cultura não é respeitada, os recursos naturais são apenas um meio para enriquecer ainda mais, a vida de um homem tem um preço, e saxofones e parques de diversões são apenas decorações para uma vida vazia.

Naturalmente, colocar um preço na vida de Dramaan não é somente culpa de Linguere. Após ter sido traída, agora quer que ele pertença a ela para sempre – pelo menos como um homem morto. Ela o quer como uma posse, para compensar o vazio emocional que sentiu por décadas. No entanto, ela precisava comprar sua vida de alguém.  Quem o vendeu? Sua própria comunidade. Eles possuem sua própria parcela de culpa neste estranho comércio de vidas humanas e uma justiça inexistente, que mais se assemelha a uma vingança. Por que o venderam? A fim de cumprir seu próprio vazio emocional com os bens materiais.

Por fim, Hienas, sutilmente, aponta para outra ocorrência típica que ocorre nos sistemas capitalistas: a hiper-construção. Enquanto o filme se aproxima de seu término, a câmera nos leva para fora de Colobane, permitindo-nos ver alguns edifícios no horizonte. Provavelmente são recém-construídos, e certamente parecem incomuns em relação ao seu ambiente. Este quadro implica a invasão final do capitalismo nesta área. Não diz muito, mas nos faz pensar se tal ascensão arquitetônica permite que a cultura e a identidade locais sobrevivam. A identidade, assim, se desmancha aos poucos; tais edifícios não são diferentes de muitos outros em qualquer lugar do planeta. Após observarmos os edifícios, Mambéty lembra-nos do que realmente torna esta região especial – a sua natureza. Vemos um rebanho de elefantes, uma bela imagem da natureza. O que acontecerá com todas as belezas naturais ao redor do mundo quando as selvas de concreto dominarem completamente?

Apesar de tratar especificamente do neocolonialismo e do imperalismo cultural em países africanos, Hienas é um destes filmes universais, tanto em termos de lugar quanto de tempo. As situações descritas podem acontecer em qualquer país “subdesenvolvido” (subdesenvolvido pelos padrões capitalistas) e a qualquer momento. Mambéty demonstra habilmente o anverso e o reverso da cosmovisão capitalista, agora dominante, que nunca questiona seu significado e seus perigos, tanto quanto surpreende com seu envolvimento social, político e econômico. Desde o drama firme e tenso até as incríveis relações entre personagens, alívios cômicos, montagem precisa e fotografia espetacular, todos repletos de mensagens significativas, este filme também é um ótimo guia para todos os cineastas interessados em realizar obras socialmente importantes.



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