A Honra Perdida de Katharina Blum (1975)

Embora seja uma obra ficcional, A Honra Perdida de Katharina Blum (Die verlorene Ehre der Katharina Blum oder), co-dirigido por Margarethe von Trotta (em sua primeira direção cinematográfica) e Volker Schlondorff, em alguns pontos lembra um documentário, testemunhando uma injustiça feita a uma cidadã comum e capturando a essência de seu tempo. Baseado na novela homônima de Heinrich Böll, Katharina Blum questiona a sociedade da Alemanha Ocidental enquanto retrata como os governos tratam seus cidadãos e, por outro lado, como os próprios cidadãos são tratados pelos jornalistas, aprofundando a questão para os níveis de questões sociais, morais e até mesmo filosóficas. A complexidade de seus aspectos faz de A Honra Perdida de Katharina Blum uma reação natural a um país que já não existe, e poderia servir como uma ferramenta válida para explorar a história da Alemanha Ocidental.

A Honra Perdida de Katharina Blum tem início com um homem, Ludwig (Jürgen Prochnow), sob vigilância de policiais disfarçados, que o seguem até sua chegada numa festa. A perseguição de cidadãos considerados “suspeitos”, também uma questão desafiadora dos nossos tempos, foi considerado, durante os anos da Guerra Fria, um problema mais proeminente na Alemanha Oriental comunista. No entanto, conforme sugerido logo na cena inicial do filme, a Alemanha Ocidental estava longe de ser inocente quando se trata de espionar seus cidadãos. A presença constante das câmeras que seguem o jovem antecipa a presença do “olho público”, já que representantes da mídia assumirão o controle.

Durante a festa, Ludwig conhece Katharina Blum (Angela Winkler), e passa a noite com ela. Na manhã seguinte, o apartamento de Katharina é invadido pela polícia, que age com brutalidade e ignorância; ao invés de compreenderem que ela o havia conhecido na noite anterior, acusam-na de ajudá-lo em atividades terroristas. Os policiais invadem diretamente sua privacidade e revistam todos os cômodos de sua residência em busca de Ludwig, que já havia partido. Em determinado momento, obrigam-na a trocar de roupa sob vigília de um oficial. Isso implica que a polícia pode observar os cidadãos em todas as situações, independentemente da intimidade desses momentos. Eles também revelam sua quase cômica falta de conhecimento, pois acreditam que uma mensagem foi escrita por Ludwig, quando na verdade é a citação de Karl Marx. Tal desinformação perde seus traços cômicos quando consideramos que essas pessoas têm o poder e decidirão o destino de Katharina. A partir deste momento, a protagonista se torna uma figura pública sem ter pedido por e não pode fazer nada para detê-lo, torturada tanto pela polícia como pela mídia.

Por que Katharina se torna uma sensação pública tão repentina? Pelo suposto crime de ajudar um potencial terrorista? Na verdade, não. Seria ela uma personagem particularmente excêntrica que desperta atenção? Pelo contrário, as pessoas a acham bastante modesta, talvez até comum demais. Ela é exposta publicamente pois assim desejam os meios de comunicação e seu público. Podemos observar os jornalistas chegarem ao bairro, questionando sobre ela. As pessoas não hesitam em dizer uma ou duas palavras sobre ela, sua família, sua vida amorosa, coisas que devem permanecer em sua esfera de privacidade. Enquanto observamos seus vizinhos entrevistados, é possível notar que ficam lisonjeados com a presença da mídia e com a atenção do público. Não é Katharina quem importa, e sim eles mesmos, pessoas comuns que têm a chance de dizer algo. Logicamente, os repórteres querem desenterrar as informações mais potencialmente desagradáveis e polêmicas. Todo o conhecimento que a mídia adquire sobre Katharina, ainda que bastante precário e partindo de detalhes particularmente irrelevantes, torna-se espetacular a partir do momento em que decidem criar uma narrativa sobre sua vida. Este fenômeno da ética da mídia alimentado pela necessidade da sociedade do espetáculo também está na raiz das questões contemporâneas no jornalismo e no surgimento da pós-verdade.

Um jornalista, Werner Tötges (Dieter Laser), fornece à polícia supostas novas informações sobre Katharina, estressando ambos os campos profissionais, já que nenhum deles está alcançando seus objetivos como deveriam. As informações inéditas, na ausência de evidências reais, é usada pela polícia para invadir ainda mais sua privacidade. Katharina, por outro lado, já parece cansada, confrontada com uma força muito mais poderosa do que ela, perdendo suas próprias forças para continuar provando sua inocência. A questão é: para que tentar? A polícia parece bastante convencida de que ela está envolvida com  terrorismo, sem considerar outras opções. Eles estão determinados a prendê-la, enquanto jornalistas não poupam esforços para alimentarem o monstro que criaram através de sensacionalismo e boatos sem fundamento sendo tratados como evidências. Quando uma força governamental trata um indivíduo desta forma, não é surpreendente que ele se sinta mais seguro numa cela do que provando sua própria inocência.

Inocente ou não, o estrago está feito. Sua privacidade já pertence a qualquer um que compre jornais, que a conhece mesmo que superficialmente e agora é convidado pela mídia para falar sobre ela, bem como pessoas aleatórias que acreditam ter o direito de incomodá-la. Todos estes eventos criam uma narrativa que leva, como sugere o título, à perda de honra de Katharina, mas também à perda de liberdade e ao direito fundamental à privacidade. A polícia investiga todos seus relacionamentos, Tötges perturba sua mãe doente e forja suas palavras, pessoas aleatórias lhe enviam fotos pornográficas e ameaças sexuais. Todos acreditam possuir o direito de tratá-la como fazem. A polícia acredita, ou afirma acreditar, que está fazendo isso contra o terrorismo. O jornalista faz isso para atrair leitores e saciar a fome do leitor. Pessoas aleatórias que expressam discursos ou ameaças fazem isso pois os meios de comunicação criaram a narrativa de Katharina como antagonista pública. Eventualmente, ela não se sente livre para aparecer em público sem cobrir seu rosto, pois sua identidade causa tumultos e transeuntes que nunca a viram afirmam absurdos como “ela pertence a uma câmara de gás”. Os acontecimentos seguintes acabam por se tornar inevitáveis: Katharina aceita ser o monstro que assim o público e a mídia desejam, e, sem mais nada a perder, faz sua vingança.

No início do filme, notamos a ambiguidade da acusação contra Katharina. Seu suposto crime é uma “ameaça terrorista”, sem demais especificações. Katharina acredita em uma ideologia diferente da ideologia de seu governo. Isso significa que ela está impondo uma ameaça terrorista? Cada anarquista, comunista, marxista ou qualquer um de diferentes posições políticas da maioria é uma ameaça? Se apenas a polícia tivesse feito seu trabalho corretamente, todas estas circunstâncias teriam sido evitadas. No entanto, a obsessão por condenar um indivíduo agir com vigilância agressiva não conseguiu fornecer-lhes a informação adequada. Assim, eventualmente permitem que a situação se transforme num circo, uma aberração midiática recheada de desinformações, acusações infundadas e rumores tratados como fatos.

A Honra Perdida de Katharina Blum abre uma rede de perguntas. Um deles certamente se refere à relação das estruturas de poder na Alemanha Ocidental. Quem detém o poder? Figuras ricas nas sombras? A polícia? A mídia? Claro, todas essas estruturas têm sua dose de poder, mas parece que a mídia é a vencedora. Especialmente a mídia dedicada à criação de espetáculos. Podemos juntar o público à imagem, uma parte inevitável do círculo mágico, onde seu gosto é definido pela mídia, enquanto, ao mesmo tempo, sua fome por histórias perversas define a mídia. Como a obra tem suas raízes na realidade da Alemanha Ocidental, é importante mencionar que, como o final do epílogo sugere, o filme aponta sutilmente para o Bild Zeitung, então jornal popular conhecido por seus métodos de trabalho antiéticos.

Após todas as questões sociais que constroem a imagem da Alemanha Ocidental, algumas questões mais universais e filosóficas também emergem. Um indivíduo realmente consegue manter sua privacidade? Não percebemos como a nossa privacidade é roubada pouco a pouco a cada dia? E quanto às ideias; pode-se realmente pensar livremente se sua ideologia difere da ideologia dos governantes do país? As restrições ideológicas sempre reduzem a liberdade das pessoas ou são como medidas inevitáveis para impedir que a minoria se rebele e, assim, manter a maioria segura? Estamos em controle total de nossas vidas? A lista de possíveis perguntas e respostas é bastante longa, ou talvez até infinita, pois nós, como indivíduos, podemos responder de maneira diferente. A Honra Perdida de Katharina Blum, no entanto, faz estes questionamentos e também os responde, bem especificamente, demonstrando as atitudes firmes e o engajamento social de seus autores: restrições ideológicas fingem ser medidas seguras, enquanto, na realidade, são um grande equívoco, e, portanto, cortam a liberdade individual através do medo do desconhecido.

Os pensamentos filosóficos refletidos em A Honra Perdida de Katharina Blum são apenas uma de suas camadas. No entanto, comentários sociais arrojados e a camada ideológica são proeminentes. Eles testemunham um tempo e um país que se foram há quase três décadas, e em algum momento talvez até explique um dos diversos motivos que causaram seu fim. Tudo acontece através de uma história comum tornada extraordinária, um mundo íntimo que se torna público, a disposição de todos, e através de ideias que “nunca deveriam surgir” na Alemanha Ocidental. Essa atmosfera paradoxal torna a história de enfrentar o poder ainda mais dolorosa e edificante, e certamente mais autêntica.

“Os personagens e eventos são fictícios; a descrição de certas práticas jornalísticas não são nem intencionais nem acidentais, mais inevitáveis.”



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