Indicações – Filmes de temática LGBT

A diversidade sexual no Cinema, tal como na mitologia, no teatro e na literatura, existe desde seus primórdios. No entanto, devido a diversos tabus sociais e religiosos, tais filmes sempre foram restritos a um público alvo menor, com exibições limitadas ou mesmo censuradas fora de um determinado círculo. O intuito desta lista é introduzir algumas das maiores obras-primas que incluem e abordam o universo LGBT como um todo, uma seleção de filmes que auxiliaram a moldar a imagem do cinema sexodiverso, ainda que muitos tenham passado despercebidos pelo grande público.


AS CORÇAS
(Les Biches)
Claude Chabrol, 1968

Ao caminhar pelas ruas de Paris, Frédérique, uma rica e entediada mulher burguesa, conhece Why, uma jovem artista de rua que ganha a vida desenhando corças nas calçadas. Com a desculpa de um café, a leva para o próprio apartamento e termina por seduzi-la. Depois de alguns dias, partem para a villa de Frédérique em Saint-Tropez, onde conhecerão Paul, um arquiteto insosso que causará problemas na relação de ambas, gerando consequências inesperadas.

Como de costume, Chabrol concentra-se muito na psicologia dos personagens, analisando com sua habitual elegância as mais íntimas obsessões e neuroses. As Corsas é um filme deliberadamente lento, às vezes quase hipnótico. Os personagens parecem frios e inseguros, movem-se e falam sem pressa, como em um mundo a parte, e até mesmo no inevitável final respira-se um ar de renúncia e apatia. Grande mérito para as atrizes, em especial para Frédérique (interpretada por Stéphane Audran, na época esposa do diretor), para o roteiro pontual, de um erotismo constante, mais sugerido que mostrado, mas, acima de tudo, para a delicada e perfeita direção. Não há senso de justiça nesse drama ácido de Chabrol que, na época de seu lançamento, não deixou de suscitar escândalo. Um filme sobre a opressão, o fascínio pelo dinheiro e pelo poder.


DELÍRIO DE AMOR
(The Music Lovers)
Ken Russell, 1970

Através de flashbacks, pesadelos e sequências surreais, o filme narra a história do compositor Piotr Illyich Tchaikovsky, cuja obra também domina a trilha sonora do filme. Quando criança, Tchaikovsky assiste à morte de sua mãe, forçadamente mergulhada em água escaldante como uma suposta cura para cólera, deixando-o traumatizado pelo resto da vida. Após tornar-se um compositor renomado, casa-se com a ninfomaníaca Antonina Milliukova; no entanto, o casamento é conturbado devido ao desejo de Tchaikovsky pelo conde Anton Chiluvsky.

Esta cruel e imaginária semi-imaginária de Tchaikovsky é mais que um ótimo filme, é um filme bastante peculiar que os apreciadores do cinema não podem perder e os apreciadores da música devem assistir. Até mesmo os que não gostam da música do compositor russo sairão satisfeitos: é uma crítica visual. A atormentada homossexualidade de Tchaikovsky é o núcleo da reconstituição biográfica, particularmente atenta ao caráter psicológico e psicanalítico do personagem, ao passo que a música torna-se parte integrante da ação, como um estímulo à criação de imagens e metáforas visuais superaquecidas com elementos oníricos e surreais típicos de Ken Russell.


O DIREITO DO MAIS FORTE À LIBERDADE
(Faustrecht der Freiheit)
Rainer Werner Fassbinder, 1975

História de romance e exploração entre dois jovens homossexuais: o primeiro, um pobre rapaz que viaja com uma trupe de circo e acaba de ganhar na loteria, tornando-se rico; e o outro, filho de um empresário à beira da falência, interessado em seu dinheiro. Fassbinder trata a relação homoafetiva de forma natural, como qualquer outra forma de relacionamento, e desenvolve temas como a dominação, a exploração e a expropriação através de um melodrama sabiamente controlado e lúcido, no qual Freud concilia-se com Marx. Assumindo uma estrutura que muito lembra um filme de Douglas Sirk estranhado ao estilo brechtiano, O Direito do Mais Forte é das obras mais políticas e um das mais bem-sucedidas do diretor alemão.

Leia também: As Lágrimas Amargas de Petra von Kant (1972) e Num Ano de 13 Luas (1978)


EU, VOCÊ, ELE, ELA
(Je, tu, il, elle)
Chantal Akerman, 1974

Primeiro longa-metragem dirigido por Chantal Akerman, que também atua no filme como a protagonista Julie. Existencialista em suas raízes, a história é apresentada de forma aparentemente simples, através de uma narrativa que auxilia na quebra de padrões convencionais ao retratar a vida de sua personagem principal em uma viagem por toda a França em busca de uma resposta para o grande questionamento que sua vida fora até o momento. Tornou-se um marco na história do cinema LGBT ao apresentar uma cena de sexo explícito, com cerca de oito minutos de duração, entre Akerman e sua amante; no entanto, tal cena foi idealizada como uma forma de apresentar o sexo lésbico como algo totalmente natural, livre de olhos voyeurísticos masculinos.


EU SOU MINHA PRÓPRIA MULHER
(Ich bin meine eigene Frau)
Rosa von Praunheim, 1992

Charlotte von Mahlsdorf, registrada como Lothar Berflede em seu nascimento, nasceu no fim dos anos 1920 na Alemanha. O Partido Nazista estava em ascensão e não demorou para que o país fosse dominado pelo Terceiro Reich. Seu pai, Max, desejava torná-la um soldado e obrigou-a a ingressar na Juventude Hitlerista. Mas Charlotte não se identificava com a ideologia do pai, um homem abusivo, controlador e que aterrorizava a família; tampouco identificava-se com o sexo que lhe foi designado em seu nascimento. Os primeiros passos de Charlotte em direção à liberdade realizaram-se no momento em que matou seu pai enquanto dormia, após sofrer uma ameaça de morte do mesmo.

Assim inicia-se a vida de Charlotte von Mahlsdorf, travesti que lutou por seus direitos bravamente e estabeleceu o primeiro museu LGBT da Alemanha Oriental. O filme de Rosa Von Praunheim mescla ficção em formato biopic e narrativa documental: uma parte do filme narra a vida de Charlotte desde sua infância até o ano de 1989, quando a protagonista (interpretada, em determinados momentos do filme, pela própria Charlotte) presencia a queda do Muro de Berlim; a outra parte é composta por entrevistas com Von Mahsldorf, que relata sua vida, seus traumas e seus anos de luta com leveza e senso de humor comoventes.


O FUNERAL DAS ROSAS
(Bara no Souretsu)
Toshio Matsumoto, 1969

Ícone da Nouvelle Vague japonesa, O Funeral das Rosas é, na verdade, a livre adaptação de uma das mais célebres tragédia de Sófocoles, Édipo Rei. E “livre” talvez seja a palavra mais adequada para definir esta obra prima do diretor Toshio Matsumoto pois seu Édipo é retratado como uma mulher transexual. Fato que, de forma admirável, inverte o gênero de todos os personagens da obra grega original. Ao aventurar-se no mecanismo interno da história, em seus diversos níveis de interpretação, o espectador assistirá um filme dentro de um filme (metalinguagem), enriquecido com entrevistas com os atores, trechos de documentários, incursões ao mundo dos quadrinhos, pinturas e design gráfico. Artifícios inseridos pelo diretor para enfatizar a liberdade de expressão e a busca por uma linguagem livre e não limitada por formalismos estilísticos ou de gênero.

Assim como a obra de Sófocles vai muito além do simples drama de um incesto, Matsumoto também apresenta um drama que ultrapassa os limites do moralmente aceito (ainda nos dias de hoje) em um contexto que metaforicamente despe os personagens de todos os pudores, sem constrangimentos ou vergonha. Não por acaso, as máscaras são tão importantes no contexto do filme: os seres humanos cobrem a si mesmos com imagens que se adaptam bem às situações. Existem, segundo o narrador, até mesmo máscaras que cobrem outras máscaras, em uma série infinita de mentiras. As pessoas transexuais, travestis e homossexuais retratadas, tanto como atores que trabalham no filme como personagens interpretados, são cristalinas, desnudas, ainda que de uma maneira fatalista, assim como “desmascaradas” e, portanto, maravilhosamente adequadas para representar a tragédia de Édipo. O Funeral das Rosas é uma flor de lótus que floresce, destaca-se e valoriza a diversidade em um mundo repleto de iguais.


MAL DOS TRÓPICOS
(Sud pralad)
Apichatpong Weerasethakul, 2004

Dois amigos e uma amizade que se transforma em um romance homoerótico enquanto um dos dois tenta encontrar a si mesmo nos olhos de um tigre na escuridão da floresta. Aparentemente, mas apenas aparentemente, desprovido de lógica, o cinema de Weerasethakul é, na verdade, uma queda livre em gravidade zero na qual o roteiro tradicional é logo abandonado para dar espaço a enquadramentos enigmáticos e ao uso exasperado e extremamente expressivo do som. É raro no cinema entrar em contato com uma gramática fílmica tão humoral, capaz de ser cinema e negação deste ao mesmo tempo. Uma obra escrita mentalmente e depois deixada livre para exprimir-se instintivamente, inserindo o espectador no coração e nos mistérios da floresta para que este possa apreciar a atmosfera que o envolve como o ar úmido da Tailândia.


O REI DAS ROSAS
(Der Rosenkönig)
Werner Schroeter, 1986

Numa mansão localizada no litoral português, uma viúva mora com seu único filho, Albert, que possui um forte apreço por rosas, em especial as que cultiva em seu jardim. No entanto, os laços familiares da pequena família estão prestes a serem abalados com a chegada de um jovem misterioso, Fernando, por quem Albert apaixona-se e decide raptar e aprisionar. Ao passo em que Albert cuida de Fernando, um relacionamento peculiar surge entre sequestrador e sequestrado, representado através de um estudo da paixão humana e sua intensidade.

Com O Rei das Rosas, Werner Schroeter retorna ao esteticismo de suas primeiras obras, caminhando em direção reversa ao drama sóbrio de Palermo ou Wolfsburg (Palermo oder Wolfsburg), de 1980, seu antecessor. Através do kitsch, do melodrama caricato e do exagero proposital, Schroeter estabelece uma fusão entre Eros e Tânatos em tons de ópera, na qual Verdi, Donizetti, entre outros, ditam o ritmo. O Rei das Rosas também foi o último filme em que Magdalena Montezuma atuou; a atriz faleceu pouco antes de seu lançamento e não chegou a assistir o produto final.


SEBASTIANE
Derek Jarman, 1976

Sebastiane, soldado romano dos século III (durante o reinado de Diocleciano) exilado em uma ilha devido a sua fé cristã, é desejado por seu comandante Saverus. Mas não cede e, acusado de insubordinação, é condenado ao martírio. Falado em latim, interpretado em grande parte, por atores não profissionais, filmado com baixo orçamento em 24 dias e trilha sonora composta por Brian Eno, é o primeiro filme britânico a lidar explicitamente com o tema do desejo homossexual, com muitas referências, na maior parte em forma de paródia, a Londres e a Inglaterra dos anos 1960. O “martírio de Sebastião”, mártir e santo canonizado pela igreja católica, também inspirou muitos pintores, dentre os quais Andrea Mantegna, Il Sodoma, Gregório Lopes e Antonio Giorgetti.


TABU
(Gohatto)
Nagisa Oshima, 1999

Primavera de 1865, final do período Edo e início do Japão moderno. No templo Nishi-Honganji, os samurais do clã Shinsengumi estão selecionando novos guerreiros. Entre todos os aspirantes, apenas dois são escolhidos: Hyozo Tashiro, um samurai de origem baixa do clã Kurume e o atraente Sozaburo Kano, que logo torna-se objeto da atenção de Tashiro. São as regras extremamente rígidas que mantém o grupo unido, mas a beleza de Kano desestrutura a organização provocando rivalidade e inveja, não apenas de ordem militar. “Passei toda a minha vida infringindo tabus”, afirmava Nagisa Oshima já aos setenta anos. E é verdade. Basta pensar em filmes como O Império dos Sentidos ou o mais acessível, mas igualmente longe dos estereótipos, Merry Christmas Mr. Lawrence.

O retorno de um dos diretores mais contestadores e polêmicos da história do cinema japonês, após quatorze anos de silêncio, deu origem a um filme que resume toda sua poética, estilo e obsessões. Feroz desconstrutor dos estereótipos da cultura japonesa, Oshima ataca um repertório masculino por excelência como a história dos samurais: de um lado, coloca em cena com maestria os combates de Kendo; de outro lado dinamita, literalmente, todas as regras do gênero ao discutir abertamente um tabu tão radicado na cultura nipônica como a dos guerreiros pertencentes a uma das castas aristocráticas mais tradicionais do Japão medieval.

Leia também: Merry Christmas Mr. Lawrence (1983)




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