Kaidan (1964)

Nota: para evitar confusões entre o livro adaptado e o filme, no decorrer da matéria este será chamado de Kaidan, seu nome original, enquanto o livro será tratado como Kwaidan.

Em 1903, apenas um ano antes de seu falecimento, o escritor Lafcadio Hearn, famoso por sua paixão pela cultura japonesa em geral, publicou a coletânea de contos Kwaidan: Stories and Studies of Strange Things. A palavra kwaidan é uma transliteração arcaica da palavra kaidan, que significa “história de fantasmas”. Segundo Hearn, a maioria dos contos foram traduzidos de antigos manuscritos japoneses, enquanto outros foram baseados em experiências pessoais e em pesquisas feitas por ele, seja com folcloristas e historiadores, ou simples moradores da região onde viviam. Sessenta e um anos depois, o renomado cineasta Masaki Kobayashi, que havia se consagrado como um dos melhores cineastas de sua era após dirigir obras primas como a Trilogia da Condição Humana (Ningen no Joken) e Harakiri (Seppuku), responsabilizou-se por um ambicioso projeto que futuramente se tornaria referência cinematográfica, tanto em roteiro quanto em técnica: Kaidan (As Quatro Faces do Medo, no Brasil), seu primeiro filme a cores.

Adaptação de quatro contos publicados por Hearn, dois deles presentes em seu livro Kwaidan, o filme é frequentemente descrito como um filme de horror, mas não utiliza artifícios de gore ou sensacionalismos; ao invés disso, se mantém na tensão que se constrói aos poucos, no suspense silencioso, e em sua estética expressionista, com cenários surreais e fantásticos, para nos apresentar histórias que mais se aproximam de fábulas macabras, e obviamente, fantasmagóricas. Kobayashi, que além de cineasta também era formado em belas artes, não poupou recursos; por ser seu primeiro filme a cores, usufruiu o máximo possível das tonalidades, deixando o filme absurdamente rico em detalhes e com uma fotografia impecável. Utilizando cenários obviamente artificiais e surrealistas – como a presença de um olho gigante ao fundo de uma determinada história, como se estivesse observando tudo que se passava ali – para construir sua atmosfera, Kaidan, tal como o livro de Hearn, foi responsável pela introdução de muitos ocidentais ao folclore japonês, no qual os espectros vingativos são, na maioria das histórias, almas torturadas e trágicas, que podem até preservar um mínimo de compaixão dentro de si.

Kurokami (Cabelo Negro), o primeiro segmento de Kaidan, é uma adaptação do conto The Reconciliation, presente na coletânea Shadowings. Uma trágica história sobre um homem de Kyoto, que cansado de suas condições de vida atuais, resolve deixar sua esposa e ir para a cidade grande casar-se com outra mulher, em busca de riqueza e status social. Por mais que ela suplique, chegando a prometer que será sua esposa, ele se recusa e a abandona sozinha. Mas sua nova esposa não oferece o mínimo de felicidade, portanto ele decide retornar à sua cidade natal, e também para sua fiel esposa, a qual nunca esqueceu. Kurokami serve de apresentação para diversos elementos que compoem o filme, com sua riquíssima fotografia, cenários artificiais desolados, maquiagem primorosa e efeitos especiais inacreditáveis, principalmente levando em consideração a época em que o filme foi lançado. Esse pequeno segmento, de apenas 35 minutos de duração, exerce influência até hoje no cinema, considerando a quantidade de filmes de horror que utilizam construções narrativas similares, tais como o J-horror que popularizou-se no final dos anos 90 no Japão.

Em seguida, Yuki-Onna (A Mulher das Neves) introduz um espetáculo visual logo em seus primeiros minutos, com seu cenário composto de uma floresta coberta por neve, e ao fundo, um gigantesco olho pintado à mão, uma clara demonstração do trabalho de Kobayashi como artista plástico. Esse conto, adaptado do Kwaidan de Hearn, retrata a figura mitológica homônima, também conhecida como Yuki-musume, Yuki-onago e Yukijor?, entre outros. Dois cortadores de lenha, Mosaku e Minokichi, seu aprendiz, se perdem em meio de uma floresta, durante uma forte tempestade de neve. É quando surge o espírito Yuki-Onna, que absorve todo o sangue de Mosaku, o mais velho, matando-o instantaneamente e deixando-o congelado. Mas ao ver o desespero de Minokichi, Yuki-Onna poupa sua vida, com a condição de que ele nunca conte o fato para ninguém, nem mesmo para sua mãe; caso contrário, ela o matará.

Contrastando com o capítulo anterior, em que as cores são fracas e acinzentadas para ilustrar a melancolia e a solidão, a fotografia de Yuki-Onna apresenta belas e fortes cores, que ainda assim não destoam da proposta do filme. Pelo contrário, as cores de Yuki-Onna estão presentes nos momentos certos e nos ilustram de forma esplêndida a narrativa fantasiosa de Kwaidan. A lenda de Yuki-Onna é uma das mais conhecidas do folclore japonês, e possui diversas variações; até o século 18, Yuki-onna era um espectro maligno em forma de uma bela mulher, que atacava viajantes presos em tempestades de neve, seja congelando-os apenas pelo prazer de vê-los morrendo ou absorvendo todo o sangue, de forma vampiresca. Em algumas versões, ela se apresenta como no filme, utilizando um kimono branco, e em outras, ela aparece nua, com somente seus cabelos e seu rosto destacando-se no meio da tempestade. Algumas variações a retratam flutuando sobre a neve, não deixando pegadas, ou simplesmente sem os pés, como se costuma dizer sobre os fantasmas japoneses. Posteriormente, algumas interpretações passaram a tratá-la de forma mais humana e compassional, enfatizando sua beleza e sua natureza fantasmagórica. Em Kaidan, a retratação do espectro é um misto de diversas variações da lenda, surpreendendo o espectador quando este menos espera. Pode-se afirmar que Yuki-Onna é um dos mais interessantes capítulos desta antologia.

O terceiro segmento, Miminashi Hôichi no Hanashi (Hoichi, o Sem-Orelhas), também é uma adaptação do Kwaidan de Hearn, mas contém elementos de Heike Monogatari (O Conto dos Heike), relato épico baseado em fatos reais sobre a luta entre os clãs Minamoto e Taira sobre o controle do Japão. Embora seja mencionado no livro, o conto, cuja autoria é desconhecida e provém de pelo menos oito séculos atrás, não havia sido traduzido até então; a primeira versão de Heike Monogatari foi lançada somente em 1918, dezesseis anos após a morte de Hearn. A última batalha do conto, que resulta na queda dos Taira e consequentemente a destruição do clã, transforma-se em uma canção na voz de Hoichi, um biwa hoshi (termo designado para jovens músicos viajantes, frequentemente cegos, que utilizavam cabeças raspadas e vestimentas similares às de um monge, e foram considerados os primeiros intérpretes d’O Conto dos Heike em forma de música). Inofensivo e reservado, Hoichi não possuía a melhor das condições de vida, portanto era abrigado por um bondoso sacerdote no Templo Amidaji, onde o imperador Antoku, dos Taira, havia sido enterrado. Durante uma noite, um misterioso homem convoca Hoichi para tocar sua canção em uma região, segundo ele localizada não muito longe dali. Na verdade, o local era um cemitério, onde todos os membros e familiares do clã Taira foram enterrados. A partir daquele dia, o homem, revelando-se como o espírito de um dos Taira, convocou-o durante todas as madrugadas para cantar Heike Monogatari para o clã inteiro, cuja canção relatava sua derrota.

A lenda de Hoichi também é muito conhecida no Japão, principalmente graças à adaptação de Hearn, que utilizou a história Biwa no hikyoku yorei wo nakashimu, cuja autoria é atribuída a Isseki Sanjin, como base de sua adaptação. Hoichi também foi adaptado para outras obras literárias, assim como para o teatro, onde espetáculos são frequentemente apresentados em festivais sobre a cultura e o folclore japonês. Em Kaidan, esse é o mais longo dos contos, com mais de uma hora de duração, e também o mais detalhado. Nesse segmento, mais uma vez a fotografia de Yoshio Miyajima prova seu valor histórico, apresentando algumas das cenas mais icônicas e detalhadas de todo o filme – e possivelmente, de todo o cinema oriental. Num determinado momento, o cenário é transportado para uma ambientação surrealista, onde todos os fantasmas assistem à interpretação de Hoichi, silenciosamente comovidos e admirados, emoções que correspondem aos sentimentos do espectador ao presenciar a magnitude técnica e histórica da película. A conclusão, embora não tão agradável, é satisfatória o suficiente para que a situação de Hoichi não seja tão injusta.

O quarto e último capítulo, Chawan no naka (Numa Caneca de Chá), é o mais curto dos segmentos e é baseado em um conto homônimo presente em Kotto: Being Japanese Curios, with Sundry Cobwebs, de 1902, também de autoria de Lafcadio Hearn. Chawan no naka possui cerca de 25 minutos e apresenta uma história peculiar sobre um homem, que ao observar seu reflexo na água, via outra pessoa, sorrindo de forma cínica e encarando-o fixamente. A dúvida fica: seria o reflexo uma representação de seu “eu interior”, ou um espectro maligno? Mais similar ao primeiro segmento do que seus dois posteriores, Chawan no naka é um dos contos que mais se aproxima de uma história de terror, introduzindo composições cinematográficas que se tornaram frequentemente comuns em outros filmes do gênero, tal como seu desfecho inexplicável e perturbador.

Descrever Kaidan como um filme de terror seria reduzi-lo, mesmo porque esta não é a proposta que a obra oferece. Kaidan é um conjunto de histórias fantásticas, folclóricas e mitológicas, e certamente uma das melhores transposições da cultura japonesa no cinema. Talvez nenhum outro diretor tenha atingido esse patamar, mesmo após tantas décadas após o lançamento do filme. Embora este tenha sido um projeto arriscado, por ficar na fronteira do esteticismo e por sua longa duração, isso não é um obstáculo, pois as histórias – que não são interligadas entre si e podem ser assistidas separadamente a qualquer momento – são envolventes o suficiente para não torná-lo cansativo. Com sua encantadora beleza visual e uma elegância muito refinada,  Kaidan é uma obra enigmática, e ironicamente atemporal, desde seus minutos iniciais até os últimos segundos de duração.



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