Merry Christmas Mr. Lawrence (1983)

A importância de Nagisa Oshima para o cinema não se limita apenas ao movimento nuberu bagu (a nouvelle vague japonesa), do qual foi um dos maiores expoentes; seu estilo transgressor, que buscou quebrar tabus e novos meios de se realizar cinema, atingiu os pilares conservadores da sociopolítica japonesa desde o início de sua carreira. Obras como O Garoto Toshio (Shonen), O Enforcamento (Koshikei) e Diário de um Ladrão de Shinjuku (Shinjuku dorobo nikki) refletem um desejo do cineasta de ir contra o senso comum; filmes que, até hoje, servem como exemplos de contra-ataques a opiniões reacionárias em geral. Oshima, no entanto, tornou-se mais conhecido no exterior ao realizar Império dos Sentidos (Ai no corrida), co-produzido na França para evitar censura em seu país natal, um relato sobre a história de Sada Abe, geisha que nos anos 1930 escandalizou a sociedade japonesa por ter decepado o pênis e os testículos de seu amante (a pedido do próprio) e guardado-os consigo durante algum tempo. Após o sucesso de seu filme, Oshima realizou somente mais quatro obras antes de falecer em janeiro de 2013, entre elas a co-produção britânica Furyo – Em Nome da Honra (Merry Christmas Mr. Lawrence), de 1983.

O filme baseia-se na vida e na obra de Laurens van der Post, escritor, suposto herói de guerra e humanitário que, por diversas vezes, recontou suas experiências durante a Segunda Guerra Mundial. Durante os anos em que foi prisioneiro político do Japão, organizou um acampamento no qual ensinou de literatura à história antiga, assim como outro acampamento para preservar comida e suplementos. Os três anos em que viveu como prisioneiro na ilha de Java serviram como inspiração para sua novela semiautobiográfica The Seed and the Sower, de 1963, que narra três histórias não relacionadas, mas ambientadas no mesmo período e nas mesmas circunstâncias vivenciadas por Van der Post. Os dois primeiros contos que formam The Seed and The Sower foram a inspiração primordial para o roteiro escrito por Oshima; a primeira apresenta o capitão John Lawrence, alter-ego de Laurens, sua amizade com o sargento japonês Hara e sua convivência num acampamento militar em Java, enquanto a segunda, embora mantenha o ponto de vista de Lawrence, muda o foco para o major Celliers, oficial sul-africano alistado no exército britânico e colega de Lawrence, que desperta a atenção do capitão Yonoi de uma forma que este não consegue compreender totalmente.

A adaptação cinematográfica de Oshima, sua primeira obra em língua inglesa, conta com um elenco respeitável: Takeshi Kitano, na época conhecido por seu trabalho como comediante no Japão (muito antes de dirigir pérolas como Hana-bi e Dolls), aqui interpreta o sargento Hara; o músico Ryuichi Sakamoto, que também compôs a trilha sonora do filme, atua como o capitão Yonoi; e David Bowie, cantor e produtor que já possuía carreira consolidada no cinema, torna-se o ator ideal para o major Celliers. O ator britânico Tom Conti completa o elenco no papel do personagem que dá nome ao título do filme, John Lawrence. A escalação de Bowie para o papel foi idealizada após Oshima assisti-lo numa encenação de O Homem Elefante (The Elephant Man, originalmente concebido por David Lynch) na Broadway; maravilhado com sua performance, Oshima chegou a comentar que Bowie possuía um “espírito interior indestrutível” e fez questão de convidá-lo pessoalmente para atuar em seu filme. Bowie, que reciprocamente admirava o trabalho de Oshima, denotou algumas diferenças na direção entre os atores ocidentais e orientais: Sakamoto e Kitano, por exemplo, receberam orientações detalhadas e minuciosas de como deveriam realizar suas interpretações, enquanto Conti e o próprio Bowie foram simplesmente orientados a “atuar deliberadamente”.

Quatro protagonistas, quatro pontos de vistas diferentes. Lawrence, oficial britânico que viveu no Japão e fala japonês fluentemente, é o ponto neutro da narrativa, a “testemunha” dos fatos que estão por vir, intervindo somente quando necessário. Sua peculiar amizade com o sargento Hara, homem severo e brutal que no fundo possui resquícios de humanidade, apresenta-nos uma curiosa metáfora da barreira cultural entre ambos os povos; já Celliers, colega de prisão de Lawrence, é o portador de um segredo da juventude que o assombra até os dias atuais. O major é responsável por um dos pontos principais da trama, ao lado do capitão Yonoi, jovem comandante que não se permite falhar após seus colegas serem executados num golpe de estado realizado em 1936, no qual não pôde estar presente por ter sido enviado a Manchúria na mesma época. Enquanto trabalha no campo dos prisioneiros, Yonoi passa a sentir por Celliers algo que não é capaz de compreender, e frequentemente se encontra perguntando sobre o major para o sargento Hara e observando-o silenciosamente por horas no decorrer dos dias.

Celliers, perfeccionista, jamais conseguira admitir ser associado à imperfeição. Tal comportamento fez com que causasse, indiretamente, profundo trauma em seu irmão corcunda. Assim como a culpa persegue Celliers, que nunca conseguiu lidar com a mesma, a vergonha assombra Yonoi. Vergonha pela desonra de não ter feito o sacrifício patriota de seus colegas no golpe de estado que tirou a vida dos mesmos. Vergonha por não conseguir lidar com seus próprios sentimentos. Vergonha por não seguir sua conduta de honra à risca. Yonoi também é o único personagem além de Lawrence que fala mais de um idioma (no caso, o inglês); também é um guerreiro culto e erudito, qualidades expressadas através de suas menções de Shakespeare e por seguir os ensinamentos do bushido (código de conduta dos samurais); desta forma, percebemos que tanto Celliers quanto Yonoi desejam a perfeição a todo custo, ainda que o preço desta seja muito caro. Enquanto Celliers não aceita ser associado a algo imperfeito, Yonoi deseja aperfeiçoar-se em todos os quesitos.

Embora omita a terceira parte da fonte literária no roteiro, a transposição para o cinema expande os dois primeiros contos, alternando os pontos de vista dos protagonistas no decorrer da história. Lawrence, no entanto, é o elo em comum entre os outros personagens: culto e refinado como Yonoi, disciplinado como o sargento Hara, um prisioneiro estrangeiro como Celliers. Lawrence acaba por pagar o preço por ter tanto em comum com personalidades tão distintas e por saber lidar com estas justamente por isso; por não aceitar as normas desta guerra cultural e tentar estabelecer uma ponte entre os soldados e prisioneiros, acaba por ser espancado, humilhado e torturado. O patriotismo exacerbado do sargento Hara, homem áspero, rude e disposto a distribuir punições aos prisioneiros e a todos aqueles que não obedecem suas ordens, possui seu paralelo no patriotismo do capitão Hicksley (Jack Thompson), prisioneiro que se recusa, de qualquer maneira, em ajudar a derrubar a muralha do choque de culturas entre ambos os povos, entrando em conflito direto com aqueles que desejam entender melhor o outro lado (como é o caso de Lawrence e Yonoi, ainda que por objetivos distintos).

Podemos concluir que o patriotismo exagerado não é retratado como algo positivo e que, de fato, aproxima-se muito mais do fascismo do que quaisquer convenções democráticas. Interessante denotar, portanto, que este ideal reflete imediatamente a filosofia do cineasta japonês que revolucionou o cinema de seu país na era da nuberu bagu: similar à épica trilogia da Condição Humana (Ningen no Joken), dirigida pelo espetacular Masaki Kobayashi, Oshima relata os maus tratos e as atitudes errôneas do exército de seu próprio país. Merry Christmas Mr. Lawrence é também um dos primeiros filmes a descrever de modo lúcido as diferenças entre a cultura ocidental e oriental (os ingleses que veem a derrota como uma consequência da vida, os japoneses como uma desonra pagável com a morte). Contudo, apesar das diferenças, suas crenças rígidas quase sempre levam às escolhas erradas, sejam ocidentais ou orientais. Assim, Oshima parece afirmar constantemente que o mal e o ódio estão intrinsecamente ligados aos seres humanos, seja qual for sua formação cultural.

O filme de Oshima também confronta dois modos diferentes de experimentar o sentimento e honra: tão diferentes quanto radicalmente irreconciliáveis são as civilizações forçadas a confrontar-se. A ideia de honra japonesa encontra sua máxima na própria figura de Yonoi, o qual despreza os britânicos, pois estes renderam-se ao invés de lutar até a morte. A ideia e honra europeia é representada, entre outros, pelo major Celliers, que desafia Yonoi com um comportamento prepotente, altivo e arrogante. Em Merry Christmas Mr. Lawrence, como em outras obras do diretor, o pano de fundo é o sadomasoquismo que nasce do conflito interior entre pulsão e disciplina, e converte-se em uma espécie de memorial dos suplícios, no qual são canalizadas paixões subterrâneas levadas ao extremo. O sadismo é explícito desde o início na forma de violência cultural: os ingleses são obrigados a assistir um ritual de seppuku (ou harakiri, como é conhecido no ocidente). A guerra teria como função disciplinar as pulsões ingovernáveis, mas o resultado é sempre a derrota interior. O desejo é o mero instinto de posse. Há pouco de humano no filme de Oshima. Não parece possível cultivar qualquer forma de afeto verdadeiro. Salvar-se da doença (a febre tropical que aflige esta região úmida, uma floresta tropical claustrofóbica) parece possível apenas através do irônico distanciamento de Lawrence, que se esforça para compreender, mas possui uma piedade distante, desvanecida; ou na embriaguez de Hara que, após todos os eventos ocorridos, acaba por desejar Feliz Natal ao ex-prisioneiro do ocidente.

A perspectiva de tornar-se vencedor ou vencido, prisioneiro ou soldado, muda de acordo com a cultura da aparência, mas não muda o destino: a insensatez de sobreviver ou sucumbir é ditada pelo acaso, não existe certo ou errado, existem somente pulsões e desejo insatisfeito. A frustração gera a violência, e a guerra é somente um produto disso. O desejo pode ser assustador, portanto é aprisionado, blindado na disciplina bélica, que se auto-exclui. Mas é impossível, o desejo flui entre os sulcos da disciplina, desestabilizando-a e distorcendo-a, transformando-a em sadismo. Assim, a própria violência intrínseca na disciplina bélica é uma tentativa malfadada de controlar punções não satisfeitas, enraizando-a na violência cometida contra si mesmo ou ao outro. Portanto, como “disciplina”, contem em si mesma o germe da própria derrota: é impregnada de pulsão destrutiva, único alento de um estado existencial insatisfeito, no qual não se dá ao desejo a oportunidade de encontrar uma saída e sedar-se.

Ainda que a produção internacional neutralize um pouco o rigor, o filme é rico em invenções figurativas, insólito em sua estrutura narrativa e sustentado por uma linguagem sóbria e estética, mas não complacente. Mérito total de Nagisa Oshima esta mise-en-scène enxuta e impecável (quase ritual), que traz em seu bojo muitos elementos do Teatro Noh japonês. Um rigor formal tão seco que resulta quase distanciado (ao estilo de Brecht, principalmente através de suas pequenas e vagas elipses), e até mesmo atordoante, ao passo que contrasta com a violência obsessiva (mais psicológica que física) que, por sua vez, possui como ulterior contraponto a música suave e etérea de Sakamoto (que compôs o tema do filme com seu personagem Yonoi em mente, sob pedido do próprio Oshima; uma versão cantada por David Sylvian, intitulada Forbidden Colours, é apresentada nos créditos finais e ganhou lançamento como single), às vezes imperceptível devido ao seu teor quase hipnótico, ainda que trilha sonora da abusiva violência psíquica que implode sobre si mesma e transcende o próprio filme, que harmoniza beleza e crueldade. O campo de prisioneiros no qual se passa boa parte do filme foi construído em Rarotonga, ilha javanesa remota, mas somente algumas partes do mesmo foram utilizadas nas filmagens. Oshima rodou o filme inteiro sem utilizar rushes e o enviou sem possuir nenhuma cópia de segurança; no Japão, Tomoyo Oshima, editora do filme (sem relações com o cineasta), foi a responsável pela montagem final de Merry Christmas Mr. Lawrence e finalizou seu trabalho em somente quatro dias. Um trabalho arriscado, que poderia ter sido realizado às pressas, provou sobressair-se a qualquer tipo de dificuldade técnica.

O berço, ou melhor, a incubadora imposta e artificial na qual Oshima implanta toda sua história é este mesmo campo, cenário de uma convivência precária entre prisioneiros e cárceres. Um teatro feroz que amplifica, potencializa e exalta cada mínima vibração humana, exasperando-a e expandindo-a até inverter todos os elementos em relação à posição precedente. De um lado, o rigor nipônico, levado ao absurdo, do outro, o caos latente que a presença ocidental parece constantemente insinuar. É possível definir a prisão como um non-lieu, termo de origem francesa introduzida pelo sociólogo Marc Augé que define dois conceitos complementares, mas absolutamente distintos: de um lado, o espaço construído para um bem específico; do outro, a relação que é criada entre os indivíduos e este espaço, referindo-se a tal conceito enquanto situação passageira, de trânsito, fora das coordenadas institucionais ou, no caso, um estado mental ao invés de físico. Assim sendo, a estagnação e o rigor que existe em uma situação de cativeiro poderia ser a representação máxima, enquanto induzida por condições limitadas, de movimento e compenetração entre seres humanos. Um limbo no qual cada um traz um pouco de si mesmo e da educação aprendida fora de casa e onde todos, japoneses, chineses, holandeses e ingleses, compartilham a mesma condição de aparente imobilidade, apesar do desequilíbrio hierárquico entre as partes.

Oshima conduz a narrativa como um estudo antropológico dos personagens, estudados como cobaias (concedendo um flashback somente a Jack Celliers, o único realmente estranho ao contexto), observados por uma câmera que frequentemente torna-se estática para enquadrá-los do alto, transformando-os em seres minúsculos em um espaço incalculável. Quase impossível imaginar uma mensura concreta de campo, os lugares existem somente quando os personagens estão vivendo em seu interior: uma geografia humana que muda lentamente sem que os próprios personagens agentes sejam realmente conscientes disso. As celas de isolamento, por exemplo, são mostradas ao espectador como uma parede que, paradoxalmente, ao invés de isolar, une. Oshima descreve um microcosmo muito próximo ao conceito antropológico de “communitas“, formulado por Victor e Edith Turner: communitas como agregação de indivíduos marginais em relação às formas estruturadas pela sociedade e na qual se manifesta o lado mais criativo e efervescente que se insinua na estrutura institucional. Não sem danos. Temas como a homossexualidade, assim como a amizade entre prisioneiro e cárcere ou a forma com que o ser humano recusa-se a lutar para provocar uma mudança perante a uma situação que deve necessariamente ser reformulada.

Um filme inteiramente imerso em um verde transbordante, variado através de uma infinita gama de tonalidades, que torna homogêneas pessoas e coisas, presente e passado, paisagens orientais e ocidentais e, desta forma, suaviza as diferenças e alude à identidade dos opostos. Mas é o epílogo, a última esplêndida sequência que declara, definitivamente, o relativismo niilista subjacente na obra, tanto através dos diálogos sobre a igualdade substancial de todos os tipos de dogmatismo idealistas quanto, principalmente, através da imagem conclusiva que, do alto, retrata Lawrence e Hara deprimidos e impotentes, imagem que resume em si a dedutiva estilização ritual (composição do enquadramento) e a espontaneidade do gesto (a posição relaxada dos dois personagens). Os opostos coexistem negando as próprias incompatibilidades e revelando o que realmente os une. Oshima parte das diferenças clamorosas para chegar a uma unidade, evidenciando em larga escala sua tendência a genialmente surpreender o espectador, a fazer com que aconteça constantemente o inesperado, o que caracteriza todo o desenvolvimento da narrativa. O diretor japonês tenta mediar constantemente, com classe, inteligência e sensibilidade, os ponto de vista opostos, chegando a uma conclusão única, ou seja, “ninguém está certo”, mas apesar de tudo, alguma coisa, em cada caso, foi semeada.

"Farsa contínua! A minha inocência me faria chorar. A vida é a farsa a ser levada por todos." – Arthur Rimbaud



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