Nostos – O Retorno (1990)

Eu, Nezahualcóyotl, pergunto: Crês que viverás aqui eternamente? Nada é para sempre na terra: tudo se acaba, é só um pouco aqui. Ainda que seja ferro, se deteriora; ainda que seja ouro, se rompe; ainda que seja a mais fina seda, se desgarra. Nada é para sempre na terra: tudo é só um pouco aqui. Gostaria que os ciclos não tivessem fim, nunca terminassem, ciente, no entanto, de que cada pedra é momentânea, cada minuto fugaz e cada alegria passageira.

– Manuel Scorza, A Dança Imóvel

Nove anos após o lançamento de O Planeta Azul (Il Pianeta Azzuro) – filme em que Franco Piavoli descreve, através da simbologia da água, a história humana e seus dias, seu nascimento e declínio no arco de um ano e da eternidade – o dócil artesão da película retorna ao cinema com Nostos – O Retorno (Nostos – Il Ritorno) no qual, a partir da Odisseia, esboça uma nova visão do Ulisses homérico. O herói de Piavoli é implacável e cruel mas, a um certo ponto sonha em voltar para casa. E sua viagem será um retorno não somente aos braços de Penélope, como também uma jornada catártica que o purificará das atrocidades da guerra, graças à intercessão da implacável natureza. De acordo com os dicionários, o termo “viagem” indica a mudança de um preciso ponto de partida para um igualmente preciso destino de chegada. Contudo, a definição pode ir muito além de sua significação concreta e realista: Nostos, o correspondente grego para viagem, deu origem à palavra “nostalgia”, portanto a viagem pode também significar dor e saudade, assim como o desejo pelo conhecimento, pela busca (ou afastamento) de si e das coisas e pessoas mais estimadas. Desta forma, o itinerário de Ulisses não consiste somente na chegada a um porto final, sua nativa Ítaca, mas na superação de desafios que extrapolam os limites físicos e atingem seus medos, seus arrependimentos, assim como suas ilusões e seus sonhos.

Cinema em estado puro, composto por imagens e sons. A difícil operação executada por Piavoli parte propriamente da ideia de conferir um valor estético e hedonista às imagens em movimento. Nostos é uma odisseia fílmica que obedece somente aos ritmos e alternâncias primordiais, que flui das profundezas mais genuínas das técnicas cinematográficas e se oculta através dos anos em um nicho no qual permanece por anos, como um remoto testemunho de uma civilização microscópica e microcósmica, como um fóssil paleolítico a ser descoberto; como um planeta azul inacessível, um terreno selvagem ligados aos elementos – água, fogo, ar, terra; como uma exuberante floresta tropical onde tudo se confunde com o todo, mas onde cada parte, considera isoladamente, resulta inconfundível e diversa de todas as outras. Basta saber observar. Um cinema incontaminado e inocente que muitas vezes não conhece o verbo – somente o som, o gesto ou o delírio, e cuja íntima ordem mistura-se lentamente às odisseias humanas, às fases lunares e às estações atmosféricas. Trata-se de um cinema etológico, entre o ethos e o logos, fora de qualquer categoria pré-concebida e de qualquer possibilidade de julgamento.

Piavoli pode ser considerado, com razão, um dos poetas máximos (e talvez o mais intransigente) deste cinema, o primeiro interlocutor da ética. Seu universo criativo é realmente um “planeta azul” onde existem e vigoram somente as leis da natureza (animal, vegetal, mística). Um espaço/tempo onde cada evento  possui cadência e memória milenar, nada além da própria entidade mais intrínseca, daquilo que é e basta, que inspira a capacidade inefável e árdua de transfigurar-se em algo cósmico, metafísico, repleto de essência: parte inequívoca de uma harmonia inapelável mas ao mesmo tempo imanente, embora incognocível. Nostos é um filme secreto que deve ser trazido à luz, ainda que zelosamente conservado na escuridão das entranhas de uma caverna ou generosamente espraiado sobre os campos, rios e mares, iluminado pelos raios do sol. Uma busca pelo genuíno que se revela em cada fotograma, em cada enquadramento, em cada cena e em cada sequência com a mesma inspiração e obstinação dos antigos narradores de poemas gregos, que deram origem às obras homéricas. Como eles, o diretor narra as mesmas aventuras da carne e da alma, as mesmas vicissitudes humanas, as mesmas intervenções, benéficas ou adversas do cosmos através de sua atividade cotidiana, de seus gestos sempre iguais, antigos e seculares. Como eles, narra mitos e nascimentos, crepúsculos intermináveis de culturas, de nações da consciência. Era quase inevitável, portanto, que tal itinerário não o conduzisse às costas salobras do herói clássico.

Sendo assim, uma dança imóvel anuncia Nostos: um barco à deriva com a quilha suavemente acariciada pelas ondas espumantes e a vela movida apenas por uma brisa suave. Seus passageiros, deitados ao fundo com seus membros inertes, dormem. Em um canto, um amontoado de capacetes e escudos de prata (emblemas de guerra) reverberam de forma ameaçadora. A tal inequívoco prólogo: o “herói” que retorna – Ulisses e seus companheiros? Jasão e os Argonautas? Ou então guerreiros saqueadores provenientes de outras latitudes? – depois de haver concluído a proeza), sobrepõe-se a imagem de um círculo que rola colina abaixo, perseguido por uma criança e, de repente, fagocitado por um enorme globo de fogo e sol. Um sonho? Uma visão? Uma recordação? Um pressentimento? Círculo e criança, brincadeira e infância, marcarão, em intervalos regulares como linhas de um pentagrama de uma peça musical,  todo o movimento do filme, dando-lhe seu equilíbrio, sua medida ideal, suprema. Forma e encantamento, linha e evocação, geometria e quimera: todos reduzidos aos dois componentes iniciais, representando a instrumentação essencial através da qual Piavoli orquestra e regula o próprio material visual e sonoro.

A forma, a linha e a geometria das camadas geológicas nos abismos de uma caverna transformam-se nas vozes de uma Sibila maternal inspirada por Apolo que arbitra o fatum, a palavra da divindade expressa através de sons estridentes, o destino irrevogável, como o sopro do vento em uma grande árvore frondosa, na miragem de haver revelado o caminho de retorno à pátria; ou a linha da água que esculpe a superfície marinha com tons dourados e transparentes na magia de um paraíso terrestre onde reina o esquecimento; ou ainda a geometria do trapézio final através do qual Nostos deverá atravessar para emergir de sua mítica jornada na ilusão de ter chegado em casa; e finalmente as linhas e formas arquitetônicas do palácio, evocação de um tempo imutável no qual a mãe sentada na soleira da porta, espera o filho. Fato este que nos remete à invocação da “mãe” natureza, explicita na sequência ambientada na caverna, como o icônico plano em que Ulisses não passa de uma simples sombra refletida no útero da terra, ou na cena em que o herói mergulha sem fôlego em direção ao reflexo da lua no mar, comparando o rei de Ítaca a um espermatozoide e o satélite natural (antiga deusa Selene para os helênicos) a um gigantesco óvulo luminoso.

Mas até mesmo a geometria das palavras é transformada em uma sonoridade disforme (as poucas palavras proferidas são inspiradas em sons provenientes de antigas línguas mediterrâneas), em uma musicalidade sem nenhum significado lógico a não ser o de transmitir emoções, sentimentos e paixões. Porque Nostos em si é também uma imensa metáfora, um símbolo (portanto uma fábula, um encantamento, uma evocação, uma quimera) das odisseias humanas reguladas pelas fases da lua e pelas estações do ano. E o herói em questão não é Ulisses nem Jasão, ou qualquer outro, e sim apenas o fluir dos estados naturais, a sucessão de afetos, de desejos e necessidades elementares, como o desprendimento, a conquista de novas fronteiras, de novos horizontes, trazendo frequentemente  morte e destruição. É também o desejo o levar consigo, em compasso ou contra o desejo de “vagar”, fortes laços com os lugares e as pessoas da própria história e do próprio passado.

Quanto à sonoridade extradiegética, o barco viaja sobre as notas de Sederunt príncipes, organum a quatro vozes do Magnus Liber Organi (Grande livro do organum), de Pérotin, vértice da amplificação musical da palavra litúrgica. Em tempos medievais, os órgãos não produziam música para todos os dias, mas constituíam um motivo fundamental de festividade na catedral de Notre-Dame em Paris. Portanto, eram destinados somente às ocasiões mais solenes. Para Piavoli, a peregrinação do herói de Ítaca deveria ser saudada com a maior experiência que um mortal pudesse vivenciar. Já seu retorno à câmara nupicial é selado por uma sinfonia de Claudio Monteverdi, uma justaposição lúcida que evoca, de modo latente, uma típica melancolia da primeira metade do século XV, de Matteo Boiardo a Ludovico Ariosto: a fantasia convive com a amarga consciência da realidade. O ser humano não pode mais tornar-se um pioneiro, e sim uma sensível testemunha, longe dos tempos de glória. Leis e poesias gregas e latinas perdem-se no atlas, há uma compreensão indulgente dos comportamentos dos indivíduos de seu tempo, porém seu impulso desaparece frente à grande selva da vida. Desta forma, os diálogos incompreensíveis entrelaçam-se a esta trilha sonora bem estruturada pelo diretor, inserida em uma montagem extraordinariamente evocativa e épica (embora distante do sentido épico que temos em mente).

Na realidade, o cinema de Piavoli é uma grande poesia épica do “criado”: para o diretor, o mais importante é um farfalhar das folhas, uma mudança repentina de cores, a tonalidade da terra ou um inseto camuflado entre grossas folhas de grama. Ele sabe como alterar tais pequenos fatos na História, é capaz de enxergar e registrar em lugares onde ninguém encontraria um ponto de interesse. Seu cinema pertence aos elementos, é terreno mas espiritual, panteísta mas sobrenatural, elementar mas filosófico. É o cinema de elementos primários que compõem o globo terrestre, bem como as galáxias, assim como a mente humana. Tudo fundido e regulado como uma dança. Mais popular e direta que uma sinfonia, na dança (aparentemente) imóvel da Natureza em que tudo, “ainda que seja ferro, se deteriora; ainda que seja ouro, se rompe; ainda que seja a mais fina seda, se desgarra”, e onde “cada pedra é momentânea, cada minuto fugaz, cada alegria passageira”. A Natureza consciente de que, cedo ou tarde, a memória será perdida para sempre.

Acesse o vídeo para assistir o filme completo:



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