O Espelho (1975)

Pouco após dirigir seu primeiro filme, A Infância de Ivan (Ivanovo Detstvo), Andrei Tarkovsky escreveu sobre sua ideia para um novo projeto: um filme sobre sonhos, explorando as memórias e pensamentos de um único homem, sem que o personagem aparecesse de fato. Tarkovsky desenvolveu essa ideia posteriormente enquanto dirigia sua obra mais grandiosa até o momento, Andrei Rublev, e chegou a escrever alguns episódios envolvendo essa temática. Ao publicar alguns desses episódios, batizou a obra como Um Dia Branco, mesmo nome de um dos poemas de seu pai, Arseny Tarkovsky. Após terminar Rublev, Tarkovsky desenvolveu o roteiro de sua obra paralela, temporariamente intitulada Confissão, para uma adaptação para o cinema, mas não obteve aprovação da Goskino, o comitê cinematográfico da União Soviética, por sua natureza complexa e não convencional. Somente após o término de seu filme mais conhecido, Solaris, é que Tarkovsky conseguiu seguir adiante com o projeto, agora com um nome definitivo: O Espelho (Zerkalo).

À primeira vista, O Espelho não possui enredo aparente. Na verdade, a obra oferece uma combinação rítmica de cenas contemporâneas, memórias de infância e filmagens reais da guerra. O ano era 1974 e os dias não eram dos mais fáceis para os sovietes, especialmente para os artistas, lutando todos os dias para que não fossem censurados ou assassinados pela KGB. Tarkovsky, aproveitando-se da oportunidade de realizar um filme autobiográfico e pessoal, utilizou elementos da situação de seu próprio país e os inseriu em seu filme, que é dividido em três eras diferentes: pré-guerra, guerra e o pós-guerra do final dos anos 1960. Essa estrutura complexa, porém simultaneamente simples, ajudou a mascarar, ainda que levemente, um forte relato e protesto pessoal.

Logo no início do filme, somos apresentados ao jovem Ignat (Ignat Daniltsev), que ao ligar a televisão, assiste a um curioso programa no qual um homem gago é examinado por uma médica que afirma ser possível curá-lo naquele exato momento. É logo em seus primeiros momentos em que uma das metáforas de O Espelho se faz presente, através de uma suposta cura para que alguém possa falar normalmente. Mas após os créditos iniciais, o foco muda para o garoto Alexei (também interpretado por Ignat), e sua mãe, Maria (Margarita Terekhova). Durante a guerra, o pai de Alexei foi servir ao exército e nunca mais retornou. Sua mãe, extremamente dedicada ao trabalho, ama muito seu filho, mas por motivos que o próprio Alexei não consegue compreender, mantém-se distante.

No período durante a guerra, sabemos que Alexei, tal como seu pai, também foi guerrilheiro. Ele se casou com Natalia (também interpretada por Terekhova) e com ela teve seu filho, Ignat, que no momento atravessa uma situação muito similar à que o próprio Alexei atravessou na infância. A narrativa alterna-se entre cenas reais de conflitos em que a União Soviética envolveu-se, como a Guerra Civil Espanhola da década de 1930 e o Conflito Fronteiriço Sino-Soviético do final dos anos 1960. Por fim, no presente, Alexei está em seu leito de morte, sendo cuidado por sua mãe, Maria (agora interpretada pela própria mãe de Tarkovsky, Maria Vishnyakova) e por sua ex-esposa.

O Espelho é um filme intrinsecamente pessoal, com memórias e metáforas que retratam a infância do próprio Tarkovsky, como a evacuação do povo de Moscou para o interior do país durante a guerra, fato que o próprio presenciou quando era criança. Tal como a Maria da ficção, sua mãe também era revisora de um jornal e passou por humilhações desnecessárias quando seu marido, o poeta Arseny Tarkovsky, foi obrigado a deixar a família para servir a Segunda Guerra Mundial, onde foi ferido em combate. Arseny, pai de Andrei, foi um poeta e tradutor que publicou sua primeira coletânea de obras em 1962, mesmo ano de estreia do primeiro filme de seu filho. Em O Espelho, seus poemas são narrados por ele mesmo, como uma clara alusão às cartas e poemas que enviava ao seu filho durante a guerra. Quando jovem, o poeta quase foi assassinado por escrever, juntamente com seus amigos, um poema que continha um acróstico sobre Lenin, mas foi o único que conseguiu escapar. A influência artística de seu pai influenciou todo o trabalho de Tarkovsky, que optou por escrever poesias materializadas de forma visual em seus filmes.

Quando O Espelho foi anunciado, Tarkovsky foi chamado de pretensioso por desejar desenvolver um projeto sobre si mesmo. Mas a forma através da qual o filme foi concebido impede com veemência que a obra seja fruto de mero egocentrismo do cineasta. A autorreferência se faz presente a todo momento, exemplificada através de um pôster francês de seu filme Andrei Rublev na parede de um quarto durante o período pós-guerra. O Espelho também foi uma grande influência em trabalhos posteriores do diretor, como uma determinada cena em que um celeiro se incendeia, referenciada de forma ainda mais brilhante e trágica na última obra prima de Tarkovsky, O Sacrifício (Offret). A morte de Alexei durante a guerra demonstra toda a angústia e o luto que Tarkovsky sentia durante os conflitos e a censura imposta por seu país. Mas seus filhos, que passam a ser criados pela avó, demonstram a esperança de um futuro melhor, tanto para o povo soviete quanto para a União em si.

O apreço de Tarkovsky pela arte, evidenciado em todas suas obras, também se faz presente a cada momento no filme. A canção de abertura é Das alte Jahr vergangen ist (BWV 614), parte da coleção de prelúdios corais Orgelbüchlein, de Johann Sebastian Bach. Um recitativo do mesmo compositor, Matthäus-Passion, também está presente na trilha sonora do filme, esparsa e minimalista. As cenas ambientadas durante o inverno referenciam o quadro Os Caçadores na Neve (Jagers in de Sneeuw, que também fora referenciado em seu filme anterior, Solaris) e também um detalhe do quadro Paisagem de Inverno com Armadilha para Pássaros (Winterlandschaft mit Vogelfalle), ambos de Pieter Bruegel. A cena em que a vizinha de Maria experimenta seus brincos novos, presente da própria Maria, remete ao famoso quadro de Johannes Vermeer, Moça com Brinco de Pérola (Het Meisje met de Parel), obra conhecida como a Mona Lisa Holandesa.

Comparativo entre cena e Moça com Brinco de Pérola; clique para ampliar

Comparativo entre cena e Paisagem de Inverno; clique para ampliar

Comparativo entre cena e um detalhe de Caçadores na Neve;
clique para ampliar e clique aqui para ver o quadro completo

O filme pode ser um pouco difícil de ser digerido por seu ritmo calmo e onírico, uma justaposição entre memórias, realidade e poesia. A narrativa peculiar pode espantar alguns espectadores desavisados – um dos motivos para que a Goskino desejasse a censura do filme foi justamente sua aparente incompreensibilidade. Naturalmente, essa pode ter sido uma mera desculpa para o fato de que o filme possuía uma forte mensagem contra a guerra e uma retratação realista dos inocentes prejudicados por esse período. Não existe arte que não possa ser compreendida; toda arte é capaz de transmitir uma mensagem, seja de forma direta ou oculta. Não há subjetividade na arte ou um mero exercício de livre interpretação quando seu objetivo é tão concreto – caso contrário, não seria arte. E não há nenhum adjetivo mais propício para definir O Espelho senão arte cinematográfica. Mesmo aqueles que não apreciam o filme por alguma razão, certamente acharão muito difícil apagar suas cenas da memória.

Ironicamente, diferente do que seus personagens metaforizados representam no filme, o pai de Tarkovsky viveu mais tempo que o filho, que faleceu precocemente de câncer em 1986, aos 54 anos. No entanto, a bela história metaficcional (cujo texto possui influência Checoviana), imortalizada pelo cineasta russo, magistralmente fotografada por Georgi Rerberg, com imagens alternadas em cores e preto e branco, viajando entre passado e presente, a realidade e as fantasias (os sonhos), tudo acompanhado pela trilha sonora tocante de Eduard Artemyev, frequente colaborador de Tarkovsky em toda sua carreira, formam um registro único na história do Cinema, de beleza raramente vista. Inicialmente distribuído de forma limitadíssima, com apenas setenta e três cópias, a história foi justa com O Espelho; embora a Goskino tenha proibido sua exibição em Cannes, fato que gerou um protesto do próprio diretor do festival na época, atualmente o filme ganhou seu merecido reconhecimento como uma das maiores e mais importantes obras de um dos mais grandiosos cineastas que o mundo já viu, figurando em diversas listas de melhores filmes de todos os tempos da crítica especializada.

“Não acredito em premonições, não temo superstições,
veneno e calúnia não vigoram sobre mim.
Não existe morte, senão plenitude no mundo.
Somos todos imortais; tudo é imortal.
Não é preciso Golpista a morte,
seja aos dezessete ou aos setenta.
Nada há além de presente e de luz;
escuridão e morte não existem neste mundo.
Chegados que somos todos à margem, sou um dos escolhidos
para puxar as redes quando o cardume da imortalidade as cumular.

Habitai a casa, e a casa se sustentará.
Invocarei um dos séculos ao acaso: eu o adentrarei
e nele construirei minha morada.
Sento-me portanto à mesma mesa
que vossos filhos, mães e esposas.
Uma só mesa para servir bisavô e neto:
o futuro se consuma aqui agora,
e quando eu erguer a minha mão,
os cinco raios de luz convosco ficarão.
Omoplatas minhas como vigas mestras,
sustentaram por minha vontade a revolução dos dias.
Medi o tempo com vara de agrimensor:
eu o venci como se voasse sobre os Urais.

Talhei as idades à minha medida.
Rumamos para o sul, um rastro de poeira pela estepe.
As altas ervas agitavam-se entre vapores
e o grilo dançarino,
ao perceber com suas antenas as ferraduras faiscantes,
profetizou-me, como monge possuído, a aniquilação.
Atei então, rápido, meu destino à sela,
ergui-me sobre os estribos como um menino
e agora cavalgo os tempos vindouros a meu ritmo.

Basta-me minha imortalidade,
o fluir de meu sangue de uma para outra era,
mas em troca de um canto quente e seguro
daria de bom grado minha vida,
conquanto sua agulha voadora
não me arrastasse, feito linha, mundo afora.”

– Viva, Vida! (Arseny Tarkovsky)



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